Na introdução do livro Construir Cultura Vocacional, Amedeo Cencini – sacerdote canossiano, doutor em Psicologia e referência para nós e todo segmento vocacional – apresenta-nos três componentes indispensáveis para a missão de transformar uma cultura anti vocacional em uma cultura vocacional.
Mas, primeiramente, o que seria uma cultura anti vocacional?
No documento Novas Vocações para uma Nova Europa, a Igreja define o “homem sem vocação” como fruto de “uma cultura pluralista e complexa”, que “tende a produzir jovens com uma identidade incompleta e fraca, com a consequente indecisão crônica diante da escolha vocacional. Muitos jovens não dominam nem mesmo a gramática elementar da existência; são nômades: circulam, sem se firmar em nível geográfico, afetivo, cultural, religioso, eles vão tentando! Em meio à grande quantidade e diversidade das informações, mas com pobreza de formação, mostram-se dispersos, com poucas referências e poucos referenciais. Por isso têm medo do futuro, sentem-se ansiosos diante de compromissos definitivos, e se questionam a respeito do seu ser. Se, por um lado, a qualquer custo buscam autonomia e independência, por outro, como refúgio, tendem a ser muito dependentes do ambiente sócio-cultural e a procurar a satisfação imediata dos sentidos: daquilo que me agrada, daquilo que faz com que eu me sinta bem, num mundo afetivo feito sob medida” (11).
Datada de 1997, essa análise crítica da sociedade continua a revelar-se muito contemporânea, ainda mais potencializada pelas novas tecnologias e pela velocidade e grande volume das informações no ambiente digital.
Apresentaremos a seguir os 3 passos que o autor, inspirado também na outra fonte citada, revela neste processo tão caro à Igreja!
“Se uma certa animação vocacional é, ou era, perenemente incerta e tímida, de forma a parecer quase em condição de inferioridade em relação a uma cultura anti vocacional, hoje só faz verdadeira promoção vocacional quem é animado pela certeza de que em toda pessoa, sem exclusão de ninguém, existe um dom de Deus que espera ser descoberto” (13).
Eles nos levarão a reflexões profundas:
- Queremos realmente uma cultura vocacional ou queremos novos membros para nossas instituições?
- Amo meus irmãos/irmãs de instituição e potenciais vocacionados por que não quero perder ou por que desejo cuidar?
- Hoje as estratégias são de sobrevivência ou crescimento?
- Como acolho os que chegam? Os que sofrem? Os que estão adoecidos e cansados? Os que celebram?
- Dou tudo para todos ou apenas para aqueles que acredito que irão “seguir” no carisma?
- Estou em crise vocacional? Se sim, deveria permanecer à frente da animação vocacional nesse momento?
- Quantas pessoas foram cativadas a partir da minha vida consagrada?
Vamos lá?
- Mentalidade
Nessa primeira análise, Amedeo apresenta a cultura como fundamento da identidade de um povo, ou seja, pressupõe a consciência de uma coletividade.
A mentalidade da cultura vocacional é, portanto, baseada na corresponsabilidade e noção de que todos são animadores vocacionais. Precisamos de uma comunidade formadora, não apenas um único responsável.

Religiosos, religiosas, sacerdotes, mas também leigos consagrados, solteiros ou casados, em suas diversas pastorais de atuação, são também promotores do despertar e discernir da vocação dos que estão ao seu redor.
E o principal instrumento construtor dessa mentalidade é a própria evangelização, pois a missão também é vocação!
“Sente-se chamado a todo tempo, cada situação é uma vocação, rezar por exemplo é um chamado a estar diante de Deus para deixar-se envolver por Ele. O chamado é algo totalizante, é o que define a vida inteira e lhe confere sentido”.
- Sensibilidade
“Para se falar de uma cultura vocacional não basta uma verificação quanto certa mentalidade se torna patrimônio e convicção geral, mas quanto na Igreja cada crente se sente chamado, cada dia de sua vida”, continua o autor. Ou seja, aqui há um envolvimento global da pessoa, que supera uma fé vaga e abstrata, torna-se participante (da teologia à teofania, à teopatia).
Tem base na espiritualidade, na contemplação, na experiência cotidiana com Deus, que purifica a interpretação da vocação como mera realização dos próprios desejos e que provoca uma conversão da sensibilidade, onde sentidos humanos e sensibilidade humana crente são recuperados e, com gratuidade, maturidade e felicidade, o bem doado é vivido. Afinal, os acontecimentos da vida são teológicos!
É preciso estar sensível também às vocações que já existem e precisam de cuidados, a atenção não deve ser apenas voltada aos neo vocacionados. Isso porque o testemunho a partir da alegria é, certamente, o mais eficaz, é autêntico.

Quando uma pessoa está desanimada vocacionalmente, ela não pode estar à serviço da animação vocacional neste momento, precisa, antes, ser reanimada, uma animação interna antes da externa. Temos que arrumar a casa para receber quem chega e zelar não por interesse ou medo de perder, mas porque se ama, convive, conhece.
“O que está em risco não é o número de vocações sacerdotais, religiosas e leigas, mas a qualidade de vida cristã de cada fiel, pois é a partir daí que surgem as vocações específicas para a edificação da Igreja. […] Desejo que vocês sejam sempre um espaço aberto para acolher as pessoas e cuidar das vocações; um lugar de oração e discernimento para aqueles que procuram; um lugar de consolação para aqueles que estão feridos” (Papa Francisco).
Entenda mais sobre saúde mental na vocação e na vida consagrada neste conteúdo abaixo:
A avaliação dos aspectos psicológicos do discernimento vocacional
- Práxis
O terceiro componente busca “traduzir a teoria da vocação em comunhão fraterna onde os atos concretos (modo de falar, brincar, saudar-nos, a atenção para com o outro, o nosso cuidado, olhar) demonstram como cada um vive o projeto pensado para ele pelo Pai”. Aqui torna-se ainda mais prático, até mesmo educativo, pedagógico.
É a práxis também a resposta para fatores complexos como:
- Emergência vocacional: sendo necessário intervir nas raízes e não se contentar simplesmente com a solução vinda de fora, temporárias.
- Fuga vocacional: marcada não somente pela ausência total, mas também pelo medo e desistências nas primeiras negativas.
- Urgência vocacional: que pretende resultados imediatos, simplificando e banalizando o processo vocacional e acabando por criar angústias, não vocações.
- Desafio vocacional: que se encontra em um vai e vem das responsabilidades e não se aceita o desafio de viver a sua vocação.
- Crise vocacional: que é educativa, mas também de vida, “onde não existe uma vida adequada, não se pode comunicar/ensinar nada”.
- Risco vocacional: desequilíbrio entre a liberdade a ser respeitada e a força da proposta, precisa “despertar o fascínio e a atração do ouvinte sem ilusões, com a gratuidade e ao mesmo com a paixão de quem está convicto da força da mensagem, falando de coração a coração”.
Afinal, a crise é a de jovens não aderirem mais a nossa proposta ou nós que não conseguimos mais atrair? “Se não há uma prática habitual, nosso pensamento e nossas convicções tornam-se estéreis e para nada servem”.
- Aprenda mais e seja um propagador da cultura vocacional
No Programa de Mentoria Jornada Vocacional estudamos juntos e partilhamos sobre esse e diversos outros temas relacionados à animação vocacional a fim de possibilitar estratégias para despertar e acompanhar novas vocações.
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